Mais atrativas ou menos repelentes?

Mais atrativas ou menos repelentes?

21 de fevereiro de 2019

A maioria das plantas cultivadas pelo homem depende da polinização realizada por animais, principalmente abelhas, para produzirem frutos e sementes ou aumentam a produção quando são polinizadas por elas. No entanto, as pesquisas na área de polinização agrícola normalmente assumem que os diversos tipos, variedades e híbridos agronômicos de uma espécie cultivada são igualmente atrativos para os polinizadores. Segundo o artigo Volatile organic compounds role in selective pollinator visits to commercial melon types, publicado no periódico científico Journal of Agricultural Science, a coisa não é bem assim.

Oriundo da tese da então aluna do Doutorado Integrado em Zootecnia na Universidade Federal do Ceará, Nayanny Fernandes, como parte de uma parceria entre o  Grupo de Pesquisa com Abelhas da Universidade Federal do Ceará , coordenado pelo Prof. Breno Freitas, e  as equipes dos pesquisadores Guilherme Zoccolo e Fernando Aragão da Embrapa Agroindústria Tropical, o estudo mostrou que as abelhas africanizadas (Apis mellifera) utilizadas na polinização do meloeiro (Cucumis melo) não só usam o odor das flores para distinguirem diferentes tipos comerciais dessa cultura como apresentam preferência por visitar flores de certos tipos de melão em detrimento de outros. Dessa forma, as flores dos tipos mais visitados são melhores polinizadas com implicações diretas na produtividade.

Flor e fruto do melão Cantaloupe

No  estudo, os pesquisadores investigaram os compostos orgânicos voláteis (COVs)  produzidos pelas flores masculinas e hermafroditas de cinco tipos comerciais de melão (Amarelo, Cantaloupe, Charentais, Galia e Piel de sapo) e constataram uma variação significativa tanto na  identidade quanto na quantidade dos COVs entre os sexos das flores, mas principalmente entre os tipos de melão. Ou seja, as flores dos distintos tipos de meloeiro cheiram diferente para as abelhas, já que esses compostos químicos são os responsáveis pelo odor das flores. Os pesquisadores também observaram que enquanto alguns COVs apresentam função atrativa paras as abelhas, outros agem como repelentes. Assim, foram constatadas correlações positivas e negativas significativas entre a quantidade de D-Limoneno e Benzaldeído (atrativo) e α-Pinene (repelente), respectivamente, com o número de visitas que as abelhas fizeram às flores de cada tipo de meloeiro. Quanto mais visitas a flor recebe, maiores as chances dela ser polinizada adequadamente, principalmente em espécies cujos frutos possuem muitas sementes, como é o caso do melão.

Embora possa parecer estranho as flores produzirem substâncias que são repelentes para as abelhas, o Dr. Guilherme Zoccolo, cuja equipe foi responsável pelas análises químicas do estudo, explica que as plantas estão sujeitas a muitos insetos fitófagos, ou seja, comedores de folhas e flores, e a produção de COVs repelentes é uma forma de defesa da planta para afastar esses insetos-pragas. Infelizmente, essa estratégia pode acabar tendo efeito semelhante em insetos úteis, como as abelhas.  O interessante no estudo é que as abelhas não visitaram prioritariamente as flores que produzíam mais COVs atrativos, mas sim aquelas que possuíam quantidades menores de COVs repelentes, particularmente o  tipo Cantaloupe e às flores hermafroditas, que foram as mais visitadas.

Portanto, o estudo conclui que diferenças na composição dos COVs florais de melão e a proporção dos diferentes compostos no odor emitido pelas flores do meloeiro desempenham papel determinante no número de visitas de A. mellifera que cada tipo comercial recebe com implicações importantes para a polinização e produção de frutos, destaca a Dra. Nayanny Fernandes.

Para o Dr. Fernando Aragão, melhorista de meloeiro, os achados desse estudo abrem todo um campo de trabalho na perspectiva de desenvolver variedades mais atraentes para os polinizadores através da seleção de linhas de flores mais ricas em VOCs atrativos para as abelhas e/ou mais pobres em voláteis repelentes de abelhas.

O Prof. Breno Freitas, coordenador da pesquisa, destaca que os resultados do estudo deixam claro que a generalização em polinização agrícola não corresponde à realidade no campo. Cada cultura,  tipo, variedade ou cultivar pode possuir requerimentos específicos, que por sua vez vão interagir com as condições que as plantas encontram no campo. O caso do meloeiro demostrou isso muito bem; enquanto no tipo cantaloupe as flores se mostraram atrativas e as abelhas visitaram facilmente, no charentais as flores repeliam as abelhas, demonstrando a necessidade de um manejo diferenciado para convencer os insetos a visitarem aquelas flores, e assegurar a produtividade desejada.

Finalmente, os autores também ressaltam a importância de parcerias interdisciplinares e interinstitucionais como essa entre a UFC e Embrapa, onde a soma das expertises permitiu elucidar um importante aspecto da polinização do meloeiro com implicações ecológicas, agronômicas e de manejo animal.

Fonte: UFC

Compartilhe: