Genômica da paisagem da abelha jandaíra

Genômica da paisagem da abelha jandaíra

26 de abril de 2019

Por Rodolfo Jaffé

A degradação dos habitats naturais e as mudanças climáticas ameaçam atualmente os polinizadores nativos, comprometendo sua capacidade de fornecer serviços de polinização para plantas silvestres e cultivadas.

A genômica da paisagem oferece ferramentas poderosas para avaliar a influência das modificações da paisagem sobre a diversidade genética e conectividade funcional, e identificar adaptações às condições ambientais locais que poderiam facilitar a sobrevivência futura das abelhas.

Neste estudo, utilizamos estas ferramentas para avaliar padrões gerais de estrutura e diversidade genética, fluxo gênico e adaptação local na abelha Jandaíra (Melipona subnitida) ao longo da sua área de ocorrência natural. Esta abelha sem ferrão é um polinizador tropical de grande importância ecológica e econômica, habitante de uma das regiões mais quentes e secas da América do Sul.

Nossos resultados revelaram quatro grupos genéticos ao longo da distribuição da espécie. A diversidade genética não foi influenciada pela quantidade de habitats naturais remanescentes. No entanto, o grau de relacionamento genético entre as colônias de M. subnitida apresentou um forte padrão de autocorrelação espacial, e o isolamento pela resistência da paisagem explicou melhor os padrões de parentesco entre os indivíduos em comparação ao isolamento pela distância geográfica. Especificamente, o fluxo genético foi facilitado pelo aumento da estabilidade térmica, maior cobertura florestal, menores elevações e terrenos de topografia menos irregulares.

Por fim, detectamos assinaturas genômicas de adaptação à temperatura, precipitação e cobertura florestal, espacialmente distribuídas em padrões latitudinais e altitudinais. Em conjunto, nossas descobertas trazem informações importantes sobre a história natural de M. subnitida e destacam o papel de regiões com grandes flutuações térmicas, áreas desmatadas e cadeias de montanhas como barreiras de dispersão para essa espécie.

Considerando estes resultados, sugerimos três recomendações para a conservação da diversidade genética e contribuir com a sobrevivência futura da espécie:

1 – Evitar o deslocamento de ninhos além de 300 quilômetros da sua localização original;

2 – Conservar separadamente as populações de sertão das populações de chapadas, a fim de conservar adaptações locais;

3 – Preservar ou restaurar as florestas do sopé dos brejos de altitude, a fim de manter a conectividade entre as populações do sertão e das chapadas.

O estudo Landscape genomics to the rescue of a tropical bee threatened by habitat loss and climate change, dos autores Rodolfo Jaffé, Jamille C. Veiga, Nathaniel S. Pope, Éder C. M. Lanes, Carolina S. Carvalho, Ronnie Alves, Sónia C. S. Andrade, Maria C. Arias, Vanessa Bonatti, Airton T. Carvalho, Marina S. de Castro, Felipe A. L. Contrera, Tiago M. Francoy, Breno M. Freitas, Tereza C. Giannini, Michael Hrncir, Celso F. Martins, Guilherme Oliveira, Antonio M. Saraiva, Bruno A. Souza e Vera L. Imperatriz‐Fonseca está disponível em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/eva.12794.

Rodolfo Jaffé é Pesquisador Adjunto da linha de pesquisa “Biodiversidade e Serviços de Ecossistema” no ITV Desenvolvimento Sustentável

Crédito da imagem em destaque: Cristiano Menezes

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