Primavera: época de floração, polinização e maior cuidado com as abelhas

A primavera é a época de floração de grande parte dos cultivos agrícolas. Crédito: Arquivo/A.B.E.L.H.A.

A primavera marca a floração de grande parte das culturas agrícolas e exige cuidados redobrados no manejo de lavouras e colmeias, especialmente diante da maior ocorrência de eventos climáticos extremos.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a chegada da primavera de 2025, que se inicia na próxima segunda, dia 22 de setembro, às 15h (horário de Brasília), virá acompanhada de mudanças significativas nas condições de tempo em grande parte do Brasil. Temporais intensos no Centro-Sul do país e declínio acentuado das temperaturas, incluindo geada no Sul e friagem na região Norte, devem marcar o início da estação este ano. Num contexto de mudanças climáticas, as alterações de padrão e a ocorrência de eventos extremos estão cada vez mais frequentes, trazendo impactos e consequências também para a biodiversidade e a interação com os animais polinizadores.


Por que a primavera é importante para as abelhas?

Embora a biodiversidade da flora brasileira garanta flores durante o ano inteiro, a primavera concentra a floração de várias culturas importantes para a produção agrícola.

BETINA BLOCHTEIN
A pesquisadora Betina Blochtein lembra que o cuidado com as abelhas deve ser permanente. Crédito: Arquivo pessoal/Betina Blochtein

“As abelhas precisam de luz e temperaturas amenas para fazer o voo da polinização. Na primavera, a temperatura e a luminosidade aumentam, o que é um chamariz para as abelhas. É o período em que observamos mais espécies de abelhas voando”, explica Betina Blochtein, bióloga, doutora em Zoologia, CEO da Mais Abelhas Consultoria Ambiental e coordenadora executiva do Observatório de Abelhas do Brasil.

Ela acrescenta que os cultivos privilegiados durante a estação variam regionalmente: “no Sul e Sudeste, temos a soja, o girassol, o café, a maçã e a laranja, que são produtos de grande valor econômico para exportação. No Nordeste, temos manga, cacau e melão, e no Norte, açaí e cacau”.


Demanda por polinização e aluguel de colmeias

É também durante a primavera que os produtores demandam mais o serviço ecossistêmico da polinização, que muitas vezes, em função da perda de habitat ou outros fatores, não está disponível naturalmente. Assim, o aluguel de colmeias se torna uma alternativa para o incremento da produção agrícola e da renda de apicultores e meliponicultores.

No entanto, Blochtein destaca que o manejo das colmeias deve seguir rigorosamente as recomendações de segurança. Entre os cuidados, ela ressalta a importância do transporte adequado. No caso das colmeias de Apis mellifera, a recomendação é que sejam transportadas durante a noite, para evitar a exposição às altas temperaturas do dia.

Também é necessário atenção ao tempo em que permanecem fechadas nas caixas, já que o calor excessivo pode comprometer a sobrevivência das abelhas. “A falta de cuidado no transporte causa estresse e pode levar à perda de colônias. Por isso, é essencial cumprir a legislação e portar sempre a Guia de Trânsito Animal”, afirma a pesquisadora. Nesse sentido, a profissionalização da apicultura pode reduzir riscos e garantir boas práticas.

Impactos de desastres climáticos na apicultura

Medidas para evitar a mortandade de abelhas como o uso de mantas térmicas, telhados com maior proteção térmica e a procura de locais mais sombreados para as colmeias estão entre os cuidados recomendados para enfrentar os impactos das mudanças climáticas . E, após as chuvas intensas que causaram inundações no Rio Grande do Sul no ano passado, a opção por áreas mais elevadas para a instalação de colmeias também entrou para a lista de precauções.

De acordo com o “Mapeamento das Perdas de Colmeias no Desastre Climático de maio e junho/2024 no Rio Grande do Sul e indicações para a Recuperação do Setor”, elaborado a partir de uma parceria entre a EMBRAPA Meio Ambiente, o Observatório de Abelhas do Brasil, a Associação Brasileira de Estudo das Abelhas e a Federação Apícola e de Meliponicultura do Rio Grande do Sul, cerca de 21 mil colmeias foram perdidas no desastre, causando prejuízo para a produção apícola e outros setores.

Segundo Betina Blochtein, é fundamental combater o desmatamento e a mudança do uso da terra, bem como adotar medidas específicas para cada região, a fim de mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre as populações de abelhas. “Os eventos de calor extremo interferem nos apiários tradicionais. Em várias regiões do mundo, não se consegue mais ter colmeias em pleno sol”, relata a pesquisadora, que também é uma das autoras do estudo sobre as perdas de colmeias no Rio Grande do Sul.

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Abelha polinizando flor de cacau, uma das culturas que florescem na primavera. Crédito: Arquivo/A.B.E.L.H.A.


Cuidados permanentes e Boas Práticas Agrícolas (BPAs)

Para garantir abelhas saudáveis durante o ano inteiro, os cuidados devem ser permanentes tanto para apicultores quanto para meliponicultores. Entre as medidas, destaca-se a oferta de pasto apícola para abelhas silvestres e manejadas. “É fundamental plantar para as abelhas, cultivando, por exemplo, cercas vivas e plantas ornamentais, de forma a assegurar alimento ao longo do ano e permitir que as colônias cheguem à primavera fortes e populosas”, explica.

A pesquisadora também lembra que o eucalipto oferece simultaneamente néctar para as abelhas e madeira para o produtor; que leguminosas e plantas como o trevo contribuem para a qualidade do solo por meio da fixação de nitrogênio; e que culturas como a canola, por serem de inverno, oferecem recursos nutricionais valiosos para as abelhas fora do principal período de floração.

Aos produtores, Blochtein reforça a necessidade de evitar o uso de defensivos químicos durante a floração. Caso sua aplicação seja inevitável, recomenda-se optar por produtos menos tóxicos para as abelhas e seguir rigorosamente as orientações da bula.
A adoção contínua das Boas Práticas Agrícolas (BPAs) é essencial para promover a coexistência harmoniosa entre agricultura e polinizadores. “O agricultor pode ser um grande aliado das abelhas e, em contrapartida, obter ganhos significativos de produtividade graças à polinização”, acrescenta Blochtein.