Iniciativa Internacional de Polinizadores: 25 Anos de Compromisso com a Biodiversidade

Fruto da “Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores”, a iniciativa mobiliza esforços globais pela conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos.

Desde o estabelecimento da Iniciativa Internacional para a Conservação e Uso Sustentado de Polinizadores (International Pollinator Initiative – IPI), o desaparecimento das abelhas era uma preocupação mundial e motivou tomadas de decisão e ações governamentais. Conscientes sobre o papel das abelhas e de outros polinizadores para a produção de alimentos e impactados pelo declínio da espécie Apis nos países do Hemisfério Norte – causada, especialmente, por infestação das colônias pelo ácaro Varroa destructor, pesquisadores e participantes da 5ª Conferência das Partes (COP5) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), realizada em Nairóbi, Quênia, aprovaram a criação IPI. As comemorações pelos 25 anos do programa ocorreram em outubro, no Panamá.

A decisão foi um marco histórico para as ações e o estabelecimento de programas nacionais para a conservação dos polinizadores em todo o mundo. “Para nós, ela começou em 1998, quando realizamos em São Paulo o workshop internacional onde foi discutido o teor do documento a ser apresentado para discussão na COP5, a Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores. E desde aquela época o desaparecimento das abelhas era uma preocupação global. Naquele tempo, o Brasil já tinha uma pesquisa sobre abelhas bem adiantada e uma perspectiva de implementar novos estudos nesse tema”, conta a bióloga, Doutora em Zoologia e Livre-Docente pela Universidade de São Paulo, Vera Lucia Imperatriz-Fonseca. Ela é uma das coautoras do documento e há mais de 50 anos contribui, com suas pesquisas, para o tema da conservação dos polinizadores, especialmente as abelhas sem ferrão.

Os desafios da época

Quando foi criada, em 2000, a IPI tinha como objetivos monitorar o declínio de polinizadores, suas causas e seu impacto nos serviços de polinização; tratar da falta de informações taxonômicas; medir o valor econômico da polinização e o impacto econômico do declínio dos serviços de polinização; promover a conservação, a restauração e o uso sustentável da diversidade de polinizadores na agricultura e em ecossistemas relacionados. A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) foi convidada para coordenar e facilitar os processos.

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A Dra. Vera Imperatriz-Fonseca, co-autora da Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores.

“Faltava identificação das espécies de abelhas nativas. O Brasil tem cerca de 2 mil espécies nativas. Onde estão, como se chamam, quais são importantes para a vida silvestre e para a produção de alimento? Eram algumas das perguntas que tínhamos que responder na época. Primeiro o foco foi a produção agrícola e depois a manutenção dos biomas”, contextualiza Vera Imperatriz. “Mas se você comparar, a agricultura naquele tempo era muito menos impactante do que é hoje – em área, conhecimento, valor, etc. Hoje a gente tem que mudar essa percepção das pessoas sobre a importância das abelhas.”

A Iniciativa Internacional de Polinizadores foi um marco importante para o desenvolvimento de ações em escala global, impulsionando a criação de programas regionais e nacionais, como a Iniciativa Europeia de Polinizadores, a Iniciativa dos Polinizadores da América do Norte, da África, da Oceania e também a Iniciativa Brasileira de Polinizadores.

A Iniciativa Brasileira de Polinizadores

No Brasil, o ponto focal da Iniciativa Brasileira de Polinizadores no âmbito das políticas públicas foi o biólogo e doutor em Zoologia Bráulio Ferreira de Souza Dias, à época no Ministério do Meio Ambiente (MMA), onde atualmente exerce a função de Diretor do Departamento de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade. O principal objetivo do governo brasileiro era incluir o tema nos planos de ação e captar recursos para apoiar a pesquisa científica e políticas públicas sobre o papel dos polinizadores em diferentes culturas agrícolas.

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O ambientalista Paulo Nogueira Neto e a bióloga Vera Imperatriz na reunião que deu origem à Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores. Crédito: Arquivo Pessoal/Vera Imperatriz-Fonseca.

Entre as ações de destaque estão a inclusão dos polinizadores e da polinização no Plano Plurianual de Governo (2004–2007) e o lançamento, em 2003, de um programa nacional de polinização de culturas, vinculado ao PROBIO, que selecionou e financiou 13 projetos. Esses avanços foram documentados na obra Polinizadores no Brasil, coorganizada por Vera Imperatriz e outros especialistas. Muitos manuais foram produzidos pelas equipes que participaram do projeto GEF para polinizadores do Brasil. A Fapesp foi uma grande parceira do projeto para o estado de São Paulo, apoiando um projeto temático bem sucedido.

Contudo, apesar de muitos esforços esforços, a Iniciativa Brasileira de Polinizadores não está na prioridade do MMA. “As iniciativas globais foram crescendo e deram origem a planos nacionais, mas não foi o caso do Brasil. O Brasil continua trabalhando no varejo, não tem uma política nacional para polinizadores”, menciona a pesquisadora.

Criação da IPBES e da A.B.E.L.H.A.

Entre 2014 e 2016, a Dra. Vera Imperatriz destaca a criação da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) como um avanço fundamental. “Foi uma grande iniciativa. Essa plataforma tinha um objetivo diferente: abordar o problema de uma forma global, avaliar os vários aspectos do desaparecimento das abelhas e propor soluções de mitigação. A FAO trabalhava com a outra ponta, com o agricultor. A IPBES atuou em todas as frentes, inclusive incorporando o conhecimento das comunidades tradicionais”, elogia.

A Plataforma atualmente reúne atualmente 152 países das Nações Unidas que aderiram aos seus programas, com a missão de subsidiar decisões sobre conservação da biodiversidade, bem-estar humano e desenvolvimento sustentável com base em conhecimento científico sólido. Trata-se de um órgão independente, coordenado em parceria com quatro agências das Nações Unidas: PNUMA, UNESCO, FAO e PNUD.

Também em 2014 foi fundada a Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.), com o propósito de liderar a formação de uma ampla rede dedicada à conservação das abelhas e de outros polinizadores. A associação busca reunir, produzir e divulgar informações científicas que contribuam para a proteção da biodiversidade e para uma convivência equilibrada entre a agricultura e os polinizadores.

“O início da A.B.E.L.H.A. foi muito difícil, mas teve um papel importante ao tentar construir uma ponte entre dois lados que, até então, não se comunicavam. A indústria precisa conhecer e integrar a dimensão ambiental. Por outro lado, os cursos de agronomia sequer abordavam a importância dos polinizadores”, lembra Vera Imperatriz.

25 anos da IPI: uma história que não ficou no passado

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As abelhas são polinizadores importantes para as culturas agrícolas de todo o mundo. Crédito: Divulgação/Convention on Biological Diversity

Em outubro de 2025, o site oficial da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD) lançou uma página comemorativa pelos 25 anos da Iniciativa Internacional de Polinizadores (IPI). A publicação reconhece o papel pioneiro do Brasil e da Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores na criação dessa articulação global, que permanece ativa e relevante.

“Hoje, lendo a Declaração de São Paulo, parece que o mundo era outro. Vários países já enfrentam escassez de polinizadores e, na ausência deles, recorrem à polinização assistida. Na maioria dos países, as abelhas são consideradas bioinsumos agrícolas, mas aqui ainda não”, observa Vera Imperatriz.

Entre os marcos históricos da IPI, destaca-se a criação do Dia Mundial das Abelhas, celebrado em 20 de maio, instituído pela ONU em 2017, a partir de proposta da Eslovênia durante a 40ª Conferência da FAO.

Mais recentemente, em 2024, teve início o projeto “Ação Regional para Melhorar a Proteção de Insetos Polinizadores e Serviços de Polinização na América Latina e no Caribe (Poli-LAC)”, com o objetivo de fomentar o intercâmbio de conhecimentos, promover políticas públicas de proteção aos ecossistemas naturais e adaptar sistemas produtivos para conservar os serviços ecossistêmicos. A iniciativa também busca reduzir a vulnerabilidade de comunidades locais frente ao declínio dos polinizadores. O projeto, com ações previstas até 2028, ocorre no Brasil, Costa Rica, Paraguai, México e Peru, sendo financiado por uma organização da Alemanha e cofinanciado pela União Europeia.

O Plano de Ação 2018–2030 da IPI, atualmente em vigor, propõe metas globais para deter e reverter a perda de biodiversidade. Com foco em políticas integradas, implementação prática, envolvimento da sociedade civil e do setor privado, além de monitoramento e pesquisa, o plano é destinado aos países signatários da ECO-92 e de outros acordos ambientais multilaterais, bem como a governos e fundos internacionais.

Fontes consultadas

BPBES. Conheça a IPBES. Acesso em 27 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.bpbes.net.br/conheca-a-ipbes/

Convention on Biological Diversity. International Pollinators Initiative. Acesso em 27 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.cbd.int/international-pollinators-initiative/2025

DIAS, Bráulio S. F. et al. International Pollinators Initiative: The São Paulo Declaration on Pollinators. Ministério da Agricultura. Acesso em 23 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.cbd.int/doc/ref/agr-pollinator-rpt.pdf

Imperatriz-Fonseca, V. L. et al. (orgs.). Polinizadores no Brasil: Contribuição e Perspectivas para a Biodiversidade, Uso Sustentável, Conservação e Serviços Ambientais / organizadores. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012. Acesso em 24 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.livrosabertos.edusp.usp.br/edusp/catalog/view/8/7/33-1

_____________. A linha do tempo da Iniciativa Brasileira dos Polinizadores. Acesso em 24 de outubro de 2025. Disponível em: http://www.webbee.org.br/bpi/pdfs/linha_tempo_2008.pdf

Nações Unidas Brasil. FAO anuncia projeto regional de proteção a insetos polinizadores. Acesso em: 23 de outubro de de 2025. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/183318-fao-anuncia-projeto-regional-de-prote%C3%A7%C3%A3o-insetos-polinizadores#:~:text=FAO%20anuncia%20projeto%20regional%20de%20prote%C3%A7%C3%A3o%20a,mariposas%2C%20p%C3%A1ssaros%2C%20morcegos%20e%20outras%20esp%C3%A9cies%20polinizadoras