InfoA.B.E.L.H.A. – Plataforma de conhecimento técnico e científico

InfoA.B.E.L.H.A. – Plataforma de conhecimento técnico e científico

16 de maio de 2019

Em um momento em que cresce o debate sobre a queda das populações de insetos no mundo e suas possíveis causas, o Brasil avança nos estudos científicos sobre suas abelhas nativas. O fomento à geração de conhecimento vem, sobretudo, por parte de iniciativas privadas e não governamentais, contrapondo o contexto atual de redução da verba pública para a pesquisa no País.

Um exemplo é o surgimento de ferramentas digitais que oferecem um caminho mais curto para acessar o conhecimento científico disponível sobre abelhas e polinizadores. Nesse cenário, a A.B.E.L.H.A. lança hoje a marca InfoA.B.E.L.H.A., plataforma que incorpora os dois sistemas de busca desenvolvidos pela A.B.E.L.H.A:

 – Sistema de Informação Científica sobre Abelhas Neotropicais, lançado em 2016, com dados sobre as espécies de abelha, como registros em coleções, estudos, distribuição geográfica, fotos, entre outros;

 – Sistema de Informação sobre Interações Abelhas – Plantas no Brasil Brasil, lançado em 2017, que reúne dados sobre a Interação de mais de 900 espécies de abelhas com mais de duas mil espécies de plantas.

Os dois sistemas mantêm os seus nomes, mas ganham agora um “apelido”, uma forma mais simples de identificação:

InfoA.B.E.L.H.A. – Neotropicais e InfoA.B.E.L.H.A. – Abelhas-Plantas.

 Identidade

O objetivo da nova marca é popularizar e estimular o seu acesso para um público mais amplo. “A ferramenta já é bem conhecida e utilizada no meio acadêmico e governamental. Mas queremos que seja útil para todos os interessados no tema, como ambientalistas, professores e alunos do ensino médio e, principalmente, agricultores e criadores de abelhas”, diz Ana Lucia Assad, diretora-executiva da A.B.E.L.H.A..

Ela explica que o InfoA.B.E.L.H.A. é um aliado para conservação das abelhas nativas do Brasil. “Em um momento de crescimento da meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão), é importante que os criadores trabalhem apenas com espécies nativas da sua região, para evitar possíveis desequilíbrios ecológicos. Esse cuidado é possível graças à indicação de distribuição geográfica oferecida pela plataforma”, explica Assad. Também agricultores podem usar a ferramenta, por exemplo, para identificar quais as espécies de plantas nativas e abelhas ocorrem nas áreas de seus cultivos, sendo útil para recuperação de áreas florestais e tomando precauções na aplicação de defensivos.

Origem – Atalho para o conhecimento

Logo que iniciou suas atividades, em 2015, a A.B.E.L.H.A. consultou pesquisadores de diversas especialidades para ouvir deles como a entidade poderia contribuir com o desenvolvimento e divulgação do conhecimento científico sobre polinizadores e sua contribuição para a biodiversidade e agricultura brasileira. Um relato frequente tratava da dificuldade de acessar o conhecimento já existente (dados, estudos e teses), principalmente sobre as abelhas nativas.

Tanto os registros biológicos das variadas espécies nativas coletadas em mais de dois séculos de trabalho de naturalistas e biólogos quanto as teses e os estudos sobre esses insetos estavam dispersos em diversas fontes, como coleções biológicas e banco de dados, no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, majoritariamente.

O trabalho de pesquisa exigia uma garimpagem de informações que envolvia, em muitos casos, empréstimo de coleções de insetos preservados (o que oferece riscos ao acervo) e até viagens internacionais, pois muitos dos espécimes estão armazenados em coleções de museus e de universidades no exterior.

A A.B.E.L.H.A, então, convidou o Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), entidade com experiência em desenvolver ‘e-infraestrutura de dados’ e ferramentas sobre biodiversidade de acesso aberto e gratuito, para uma parceria. O CRIA é o idealizador e gestor da rede speciesLink, sistema de informação que integra dados primários de mais de 489 coleções e subcoleções biológicas (fauna, flora e microbiota).

Assim, nasceu o sistema que agrega, organiza e compartilha dados sobre taxonomia e ocorrência das espécies nativas do Brasil. Ele permite a busca de mais de 350 mil registros de espécimes de abelhas depositadas em 34 coleções biológicas nacionais e internacionais. É a maior fonte agregadora de informações sobre espécies neotropicais do Brasil e uma das maiores do mundo.

Ao pesquisar uma abelha pelo nome científico ou popular, o usuário da plataforma tem acesso a um amplo conteúdo, que inclui um inventário de todos os registros da espécie em coleções no Brasil e no mundo, estudos e teses relacionados, fotos e ocorrências geográficas, além de uma relação de plantas visitadas pelos respectivos insetos. Informações que antes estavam dispersas.

 

Bancos de dadoshttp://abelha.cria.org.br/resources


Fomento à geração de conhecimento

Apesar de o Brasil ter avançado muito no entendimento dessa fauna pequenina em tamanho, mas gigantesca em valor ambiental, ainda há muitas lacunas de dados e estudos sobre as abelhas neotropicais (nativas da região tropical das Américas) e o papel delas na polinização.

A começar pela noção das espécies que habitam o país. Já foram descritas 1.700 abelhas com ocorrência no Brasil – trabalho iniciado há mais de 200 anos, com a visita dos primeiros naturalistas europeus ao País. O problema é que os biólogos acreditam que ainda exista a mesma quantidade de abelhas a serem descobertas ou descritas, principalmente na Amazônia. E talvez seja muito mais, como apostam alguns entomologistas.

E ainda há muito a se aprender sobre o serviço gratuito que esses insetos oferecem aos humanos. Por exemplo, quais são as abelhas mais importantes para cada cultivo agrícola ou o quanto a competição entre espécies invasoras e nativas comprometem o serviço de polinização.

Ana Assad observa que o atual cenário serve como um alerta para a necessidade de se buscar alternativas para impulsionar a ciência brasileira. A própria plataforma InfoA.B.E.L.H.A. seria um caminho: “A construção de acervos digitais e de agregadores de informação agilizam e barateiam as pesquisas.”

E a Associação segue apostando nessa direção – em sintonia com a sua missão de reunir e divulgar informações, com base científica, que visem à conservação da biodiversidade brasileira. No final de 2018, a A.B.E.L.H.A., em parceria com o Instituto Tecnológica Vale, ligado à mineradora brasileira, e a Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, garantiu a incorporação de um novo acervo de peso ao InfoA.B.E.L.H.A. – Neotropicais: a Coleção Entomológica “Prof. J.M.F. Camargo” (RPSP), sediada no Departamento de Biologia da FFCLRP/USP. Trata-se do mais completo acervo de Meliponini Neotropicais (abelhas sem ferrão) existente, com cerca de 250 mil espécimes de abelhas, dos quais mais de 150 mil são Meliponini.


Parcerias público-privadas
Outra alternativa para a pesquisa nacional é a mobilização do setor privado, papel que a A.B.E.L.H.A. busca viabilizar. Um exemplo é a participação na Chamada Pública No 32/2017 para financiamento público e privado de pesquisas sobre insetos polinizadores promovida, no final de 2017, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), numa parceria CNPq, Ibama, Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e A.B.E.L.H.A.

Um dos trabalhos selecionados e já iniciado tem entre seus objetivos a atualização do Catálogo de Abelhas Moure, referência fundamental sobre a fauna neotropical de abelhas, e a expansão da base da registros do speciesLink, rede agregadora de coleções científicas. Ambos são as fontes principais do InfoA.B.E.L.H.A. que, consequentemente, tem muito a ganhar com a pesquisa.

“A atualização das duas maiores bases de dados sobre polinizadores brasileiros deixou de ser realizada nos últimos anos pois é dispendioso, exige muito pessoal e equipamentos para fazer os levantamentos. Só está sendo possível agora graças a união de recursos públicos e privados. Esses últimos provenientes dos nossos associados”, comenta Ana.

O financiamento conjunto promovido pela Chamada Pública do CNPq com esse montante (R$ 3,1 milhões para cinco linhas de pesquisa) é bastante animador e exitoso. “Precisamos de mais ciência para essa área”, explica Ana Assad. “Pesquisadores do mundo tem alertado para os diversos fatores que ameaçam a nossa biodiversidade. Se as causas são múltiplas, a busca pela solução exige a união de toda a sociedade. Afinal, todos temos a ganhar com a conservação das nossas abelhas e outros insetos.” Ações como estas indicam um caminho para o futuro de apoio à pesquisa e desenvolvimento no País: a construção de parcerias público-privadas.

Compartilhe: