Maior evento global da apicultura reuniu ciência, tecnologia e mercado em torno da conservação dos polinizadores, do combate à varroa e de inovações que conectam biodiversidade, saúde e produtividade.
A 49ª edição da Apimondia, maior congresso e feira de negócios global dedicada à apicultura, encerrou-se no dia 27 de setembro, reunindo pesquisadores, profissionais e representantes do setor de todo o mundo. Como de costume, o evento se consolidou como um importante espaço de intercâmbio técnico-científico, atualização sobre as principais tendências da área e apresentação de novidades comerciais capazes de impulsionar a produção de mel de alta qualidade e fortalecer a conservação das abelhas e dos serviços ecossistêmicos.
A A.B.E.L.H.A. esteve representada pelos pesquisadores Breno Freitas (Universidade Federal do Ceará), Cristiano Menezes (Embrapa Meio Ambiente) e Décio Gazzoni (Embrapa Soja), membros do Comitê Científico da Associação.

Durante o congresso, cientistas de diferentes países apresentaram estudos em áreas estratégicas como Apiterapia, Biologia e Saúde das Abelhas, Economia Apícola, Desenvolvimento Rural, Polinização e Flora Apícola, além de Tecnologia e Qualidade dos Produtos Apícolas. A programação também contou com a participação de nove pesquisadores convidados de renome internacional, que enriqueceram os simpósios com novas perspectivas e resultados de ponta.
A mente das abelhas
Um dos grandes destaques da 49ª Apimondia foi a palestra do professor Lars Chittka, da Queen Mary University of London, referência mundial em fisiologia sensorial, psicologia da aprendizagem e ecologia evolutiva. Suas pesquisas investigam como os polinizadores percebem e interagem com o ambiente, com ênfase em aspectos como visão, cognição e comportamento.

Durante sua apresentação, Chittka compartilhou resultados de experimentos inovadores que revelam as notáveis capacidades cognitivas das abelhas. Em seus estudos, ele demonstrou que esses insetos são capazes de aprender novas tarefas, resolver problemas complexos e até interagir com objetos de forma lúdica. Em um dos experimentos apresentados, as abelhas foram “treinadas” para puxar barbantes, empurrar pequenas bolas de isopor e até participar de uma espécie de jogo de futebol, evidenciando comportamentos antes considerados exclusivos de organismos com cérebros mais desenvolvidos.
“Ele conclui que as abelhas podem encontrar soluções para problemas de orientação espacial complexos, possuem uma rica coleção de memórias sobre situações espaciais, podem contar e formar conceitos e apresentam evidências de possuírem estado emocional, aspectos encontrados em seres vivos que possuem uma mente”, relata Breno Freitas.
Combate à varroa
A varroa (Varroa destructor), um ácaro que pode invadir e causar a mortalidade de colméias inteiras, foi tema de diversos trabalhos científicos. Grande parte da feira também foi dedicada a produtos para o controle da varroa, que causa enormes prejuízos para a apicultura europeia. “Nós brasileiros, em parte por conta do nosso clima, mas principalmente porque temos abelhas africanizadas, de maior resistência, não enfrentamos esse problema de forma tão séria”, afirma Décio Gazzoni. E completa com um apelo: “Temos que evitar introduzir rainhas de abelhas europeias no Brasil e perder uma das melhores características que as abelhas africanizadas têm que é o comportamento de limpeza e a resistência a doenças e à varroa”.
Dentre os estudos que abordaram o tema, o da professora Eliška Pinďáková Beranová, da República Tcheca, identificou os efeitos do ácido oxálico, produto usado como tratamento padrão para o controle da varroa na Europa, sobre a fisiologia das abelhas. Ela mostrou que a exposição das larvas à substância pode afetar de maneira intensa o nível de peptídeos e proteínas envolvidos na resposta imune. “A partir do momento que o ácido oxálico causa uma depressão no sistema imunológico das abelhas, deixa-as mais expostas a outros estressores, que podem ser bióticos, como fungos, bactérias e vírus, ou abióticos, como outro produto químico”, explica Gazzoni.
Biodiversidade e saúde

A preocupação com a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos também esteve presente na programação do evento. O pesquisador argentino Lucas Garibaldi, da Universidade Nacional de Rio Negro, apresentou um estudo sobre a transformação de paisagens agrícolas focadas em monocultura e agricultura extensiva em paisagens multifuncionais, com retorno econômico e aumento de produtividade. “Os dados mostram que investir no cuidado com os serviços ecossistêmicos traz benefícios ambientais e econômicos”, comenta Cristiano Menezes.
Já na área da Apiterapia, Menezes destaca um produto inovador: uma colméia de acrílico para instalação dentro de casa, com saída para fora para as abelhas, e um inalador, para ser usada por pacientes com problemas respiratórios. Ela também apresenta uma parte acoplada por onde se pode colher mel e pólen. “É uma colméia bonita, fica como um quadro na parede, e pode ser usada com esse benefício de saúde pelas pessoas”, explica.
The Global Honey Bar

A Apimondia também oferece um espaço de exposição, premiação e degustação de méis de diversas espécies de abelhas de diferentes países. Segundo Breno Freitas, apenas sete países apresentaram méis de abelhas sem ferrão: México, Equador, Tanzânia, China, Indonésia, Tailândia e Brasil. A Tailândia foi o destaque com mel de quatro espécies de Apis (Apis mellifera, Apis cerana, Apis dorsata e Apis florea), além de duas espécies sem ferrão (Tetragonula sp. e Heterotrigona itama).

Artesanato, produtos de abelhas, colméias personalizadas e equipamentos de proteção individual completaram os itens em exposição e comercialização na feira. A próxima edição da Apimondia ocorrerá em 2027, em Dubai.

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Fontes consultadas:
Apimondia. Site. Acesso em 9 de outubro de 2025. Disponível em: https://apimondia2025.com/
Coutinho, J. G. E.; Garibaldi, L. A.; Viana, B. F. The influence of local and landscape scale on single response traits in bees: A meta-analysis, Agriculture, Ecosystems & Environment,
Volume 256, 2018, págs. 61-73. Acesso em 9 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0167880917305613
Thompson, Helen M. et al. First report of Varroa destructor resistance to pyrethroids in the UK. Acesso em 9 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.apidologie.org/articles/apido/pdf/2002/04/Thompson.pdf





