Refugiado sírio retoma a vida dando aulas de apicultura

Refugiado sírio retoma a vida dando aulas de apicultura

18 de dezembro de 2017

“Olhe para elas, todas trabalhando!”, diz admirado o refugiado sírio Ryad Alsous, observando suas abelhas voarem e pousarem em colmeias cuidadosamente dispostas atrás das macieiras. “Nunca pensei que abelhas pudessem ser tão bem-sucedidas neste clima”, diz.

Dada a intolerância usual das abelhas à umidade, Alsous continua surpreso com a resistência da abelha negra nativa britânica, parentes peludas da linhagem alemã e báltica que há muito tempo se adaptaram ao Reino Unido.

“As abelhas sírias não podem sair mesmo com chuva leve”, disse. “Se faz 15 graus, não há atividade. Mas aqui, elas trabalham normalmente, faça 15 ou até 13 graus – mesmo na chuva!”.

Ex-professor de agricultura da Universidade de Damasco, Alsous, de 64 anos, chegou como refugiado ao Reino Unido há quatro anos. Abandonando suas pesquisas sobre apicultura e poluição ambiental, ele saiu da Síria depois que sua família recebeu ameaças de morte e seu carro foi bombardeado.

Em julho de 2013, uniu-se à esposa em Huddersfield, cidade de West Yorkshire, onde sua filha Razan se estabeleceu. Razan, que chegou um ano antes, é uma celebridade local, fazendo aparições em um programa de culinária da televisão britânica graças ao premiado queijo halloumi produzido por sua empresa, a Yorkshire Dama Cheese.

Ainda na Síria, Alsous cuidava de 500 colmeias cujas colônias, derivadas das abelhas de linhagem italiana e carnica, produziam pelo menos dez toneladas de mel por ano. Além de sua pesquisa na universidade, ele dirigia uma empresa que comercializava cosméticos à base de ervas e mel.

A paixão pelas abelhas foi uma das poucas coisas que trouxe consigo quando deixou a Síria. Até mesmo seu precioso fumegador de aço e borracha teve que ser enviado mais tarde por um amigo de sua terra natal.

No Reino Unido, demorou para conseguir se reerguer. Ele falava inglês, mas tinha pouco contato com falantes nativos. E fora rejeitado por ser mais qualificado que a média toda vez que procurava um emprego.

Eventualmente, se aproximou da Associação de Apicultores de Huddersfiled para se voluntariar. Lá, fez amigos e contatos, mas ainda era um apicultor sem abelhas.

“Eu precisava apenas de uma colmeia para começar”, disse. Então, ele postou um anúncio no Facebook perguntando se alguém tinha uma colmeia para doar.

Três semanas depois, em setembro de 2015, uma mulher de Manchester respondeu. Ela ofereceu uma colmeia e, para sua surpresa, uma colônia de abelhas pretas britânicas, que até recentemente se acreditava estarem quase em extinção.

“Separei essa primeira colmeia em sete partes”, disse Alsous orgulhoso, referindo-se a um método usado pelos apicultores para evitar o “puluamento” – quando as abelhas debandam para se aninharem na natureza. “Realmente, é como um tesouro”, disse. “Meu objetivo é cooperar com a comunidade para aumentar a espécie”.

O apiário de Alsous agora compreende 17 colmeias, que ele constrói a partir de materiais reciclados.

Chocado ao saber que o Reino Unido importa 90% de seu mel, de acordo com dados da indústria, ele acredita que os campos de colza da Grã-Bretanha e os morros de urze e lavanda podem suportar mais colmeias.

Foi só quando participou de um jantar realizado mensalmente para refugiados e recém-chegados na região de Huddersfield que sua ideia começou a tomar forma. Lá conheceu duas mulheres, Jean York e Jane Wood, que trabalham com refugiados no distrito de Kirklees, membro do movimento City of Sanctuary (Cidade Santuário) do Reino Unido, que ajuda na adaptação dos recém-chegados.

“Isso me animou!”, disse York, lembrando de sua primeira conversa com Alsous, quando ele levantou a possibilidade de ensinar a apicultura para refugiados e pessoas em busca de um emprego.

Geof Hughes, um apicultor local que conheceu Alsous por meio da associação Huddersfield, ficou igualmente impressionado. “Eu realmente apreciei a ideia”, disse Hughes. “Eu queria ajudar”.

No ano passado, eles montaram um comitê e começaram a trabalhar. Assim nasceu o projeto Buzz.

Com financiamento local como ponto de partida, o projeto acaba de dar a segunda de suas oficinas quinzenais para 12 voluntários. Os participantes incluem três mulheres sírias, um refugiado congolês, que tem lembranças de quando colhia mel na floresta, e um estudante nigeriano, que já perguntava como conseguir sua primeira rainha.

Depois de um encontro casual com o prefeito de Huddersfield, Jim Dodds, o projeto realmente decolou.

Alsous recebeu uma base para o próximo verão no vilarejo vizinho de Standedge, onde instalará 10 colmeias e apresentará a arte da apicultura para visitantes.

Fonte: ONU

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