Estudo publicado na  <i>Science</i> confirma papel de polinizadores na produtividade agrícola

Estudo publicado na Science confirma papel de polinizadores na produtividade agrícola

22 de Janeiro de 2016

caféEmbora estejam mais escassos no campo, por causa da redução da área das matas e do uso intensivo de fertilizantes químicos, as abelhas e outros insetos polinizadores respondem em média por 24% do ganho em produtividade agrícola em pequenas propriedades rurais (até dois hectares). Os outros 76% estão associados à irrigação e a nutrientes e técnicas de cultivo, de acordo com estudo publicado na revista Science em 22 de janeiro. Segundo esse trabalho, quanto maior o número de polinizadores, maior tende a ser a produtividade agrícola, principalmente nas pequenas propriedades.

A pesquisa foi financiada pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), integra-se ao Projeto Polinizadores do Brasil, do Ministério do Meio Ambiente, que também teve financiamento do CNPq e do Fundo do Agronegócio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Foi coordenada por Lucas Garibaldi, da Universidade Nacional de Rio Negro e diretor do Instituto de Investigaciones en Recursos Naturales, Agroecología y Desarrollo Rural, da Argentina.

O estudo teve a participação de 35 pesquisadores de 18 países, sendo 14 do Brasil, por meio de 12 instituições de pesquisa em oito Estados.

Estudos anteriores já haviam ressaltado a importância dos polinizadores para a agricultura e fornecido uma estimativa dos ganhos de produtividade com polinização por abelhas, equivalente a 10% do valor da produção agrícola. Não existiam, no entanto, análises numéricas tão detalhadas sobre os benefícios econômicos dos polinizadores auferidas pelos mesmos critérios em escala mundial.

Polinizadores e cultivos

macieiraNesse trabalho, os pesquisadores analisaram o número de polinizadores, a biodiversidade e o rendimento de 33 cultivos dependentes de polinizadores (maçã, pepino, caju, café, feijão, algodão e canola, entre outras) em 334 propriedades pequenas e grandes da África, Ásia e América do Sul durante cinco anos (2010-2014), por meio de métodos padronizados e uniformes.

Nos 12 países analisados, o rendimento agrícola cresceu de acordo com a densidade de polinizadores, indicando que, inversamente, populações reduzidas de abelhas e outros insetos poderia ser parcialmente responsáveis pela queda de produtividade.

“Demonstramos o potencial do aumento da densidade de polinizadores como forma de aumentar a produtividade agrícola”, disse Antonio Mauro Saraiva, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Biodiversidade e Computação (Biocomp) e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que participou do trabalho de organização, registro e análise dos bancos de dados. Para as pequenas propriedades, o ganho de produtividade depende da quantidade de polinizadores e não está ligada à diversidade desses insetos na propriedade. Para as grandes fazendas, em contrapartida, a única forma de se tornarem mais produtivas seria aumentar tanto a quantidade de polinizadores quanto a diversidade de plantas e animais na área cultivada.

“O que mais contribuiu para a diferença entre as taxas de produção mais altas e mais baixas foi o aumento na densidade de polinizadores”, disse Leandro Freitas, pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e um dos autores do trabalho. “O incremento no uso de técnicas convencionais de intensificação agrícola, como o uso de fertilizantes sintéticos e monoculturas, apresentou uma contribuição equivalente à dos polinizadores.”

Freitas examinou o cultivo de tomates no norte do Estado do Rio de Janeiro com a equipe de Maria Cristina Gaglianone, da Universidade Estadual do Norte Fluminense. “O grau de informação técnica dos produtores era muito baixo”, ele observou. “Muitos não sabiam que a visitação das flores por abelhas estava relacionada à produção dos tomates.”

Um estudo recente da equipe de Breno Freitas, professor da Universidade Federal do Ceará , indicou que a soja, assim como o tomate e outros cultivos, não depende de polinizadores, mas pode aumentar sua produtividade com eles.

cajueiroPara o estudo da Science, o pesquisador contribuiu com dados sobre a cultura do caju.“O trabalho mostra o impacto positivo potencial na produção agrícola resultante do aumento de polinizadores nas culturas”, explica Breno Freitas. “Percebemos também que, em propriedades pequenas, a redução do déficit de polinizadores com aumento na produtividade pode ser alcançada apenas com o aumento da quantidade de polinizadores visitando as flores. Já nas grandes propriedades, além disso, é necessário ainda aumentar a diversidade de espécies de polinizadores nos cultivos”, explica o pesquisador.

 

 

Maçãs

“Uma das principais contribuições desse estudo é a constatação de que é possível conciliar agricultura com conservação da biodiversidade e ter como resultado o aumento da produtividade agrícola. Nessa relação os dois lados saem ganhando. O estudo também abre uma janela de oportunidade de mudança para o novo paradigma da sustentabilidade, por meio da intensificação ecológica da agricultura”, explica Blandina Viana, da UFBA, pesquisadora responsável pela cultura da maçã.

O grupo de Blandina investigou um cultivo de maçãs, da variedade Eva, durante três anos, na Chapada Diamantina, na Bahia. A maçã é uma cultura autoincompatível, portanto, para a produção de frutos, ela requer o plantio consorciado de uma variedade receptora e uma variedade doadora de pólen, sendo os polinizadores essenciais para a transferência dos grãos de pólen entre as duas variedades.

maçã-1“Observamos a existência de déficit dos serviços de polinização, afetando negativamente a produtividade da macieira, provocado pela baixa riqueza e densidade de visitantes florais”, ressalta. Apenas seis espécies foram amostradas em visita às flores da macieira, e com abundância insuficiente para suprir a demanda dos serviços de polinização. “Realizamos também experimentos de adensamento do pomar com colmeias manejadas, para compensar o déficit, com uma única espécie e com duas diferentes espécies de abelhas,  e observamos que a adição de uma espécie a mais de abelha manejada no pomar já foi suficiente para aumentar em  67 % a produção de sementes e 44 % a produção de frutos.”

Garibaldi, o coordenador do trabalho, percorreu as plantações de framboesa da Patagônia e observou: “A visão dos agricultores tem mudado nos últimos anos, mas ainda não dão muita importância aos polinizadores. A prioridade é o retorno econômico de curto prazo, sem uma visão de longo prazo.” Ele ressaltou: “Existem alternativas ao modelo mais adotado de produção agrícola, com base em monocultura e fertilizantes”.

Os autores do artigo da Science ressaltam o conceito de intensificação ecológica, que consiste em adotar medidas de promoção da biodiversidade capazes de aumentar a produtividade agrícola, sem abandonar as práticas convencionais. Essas medidas podem oferecer condições de vida mais amigáveis aos polinizadores, como o plantio de plantas com flores em faixas dos terrenos ou à margem das estradas, a construção de cercas-vivas, a redução do uso de pesticidas e a recuperação das matas nativas próximas aos cultivos.

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP – Carlos Fioravanti -, Science e A.B.E.L.H.A.

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