“É o momento de voltarmos nosso olhar para a natureza e tê-la como parceira”

by Debora Bartcus | 22 de março de 2016 13:09

“É o momento de voltarmos nosso olhar para a natureza e tê-la como parceira”

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Crédito: IPBES

A Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos  (IPBES, na sigla em inglês) divulgou no fim de fevereiro a primeira avaliação mundial sobre polinizadores e sua contribuição para a agricultura. De maneira detalhada, o estudo – que reuniu o esforço de dois anos de trabalho e foi compilado por 77 especialistas de todo o mundo – relaciona uma série de fatores que põem em risco diversas espécies de polinizadores e, consequentemente, ameaçam a produção agrícola e a nutrição das populações.

Ainda que seja reveladora de um panorama crítico, a Avaliação Temática de Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos representa, sobretudo, uma oportunidade de mudança, de acordo com a co-chair da IPBES, Vera Lúcia Imperatriz Fonseca.

O documento aprovado recebeu a contribuição de mais de 120 países. Seus representantes estiveram reunidos em conferência na Malásia, em fevereiro, e muitos deles “tiveram participação direta na versão final do texto, com contribuições sobre experiências e práticas regionais e conhecimento tradicional”, enfatiza Vera, que é professora sênior do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e pesquisadora titular do Instituto Tecnológico Vale – Desenvolvimento Sustentável (ITV-DS).

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Revoada de abelhas. Crédito: Cristiano Menezes

Desta forma, acredita, a iniciativa aponta uma disposição de todos para efetivamente adotar práticas que promovam a conservação dos polinizadores e da biodiversidade e, ao mesmo tempo, ampliar o serviço de polinização das culturas agrícolas, com impacto na quantidade e na qualidade dos alimentos.

De acordo com o estudo, mais de três quartos das culturas alimentares do mundo dependem pelo menos em parte da polinização por insetos e outros animais. Entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões do valor da produção alimentar global anual depende de contribuições diretas dos polinizadores. Várias culturas agrícolas também representam uma importante fonte de renda em países em desenvolvimento.

“É o momento de voltarmos nosso olhar para a natureza, não apenas para aproveitar o bem estético que ela nos proporciona como também para tê-la como parceira, geradora de serviços ecossistêmicos, de conhecimento, educação e alimentação”.

A.B.E.L.H.A. – Como a senhora avalia os resultados da divulgação do estudo do IPBES?

Vera Imperatriz – Com muita alegria. Foi um trabalho extenso, de revisão de um vasto conhecimento científico já disponível, inclusive no que diz respeito à valoração econômica da polinização. Foram consultadas para a elaboração do documento cerca de três mil publicações científicas, além de acesso ao conhecimento tradicional. Durante a conferência, foram mais de 20 horas de negociações, em dois dias. O documento final pode servir para a definição de novas políticas públicas, necessárias para promover conservação e segurança alimentar e até então não adotadas em muitos países.

A.B.E.L.H.A. – Inclusive no Brasil?

Vera Imperatriz – Sem dúvida. Entendo que o momento é especial para todos, e principalmente para o Brasil, que contribuiu substancialmente para ampliar o conhecimento sobre os polinizadores e sua importância na manutenção da biodiversidade e da produção de alimentos. Desde o início desta tarefa, temos procurado maior alinhamento entre conservação e agricultura, e o elo são os polinizadores. Há um déficit de polinizadores na agricultura brasileira, isto é, poderíamos ter melhores colheitas se tivéssemos mais polinizadores. A agricultura  pode se beneficiar com o aumento da quantidade e da diversidade de polinizadores, que melhoram o rendimento de muitas culturas, incluindo frutas, verduras e grãos. Até a soja, que não depende obrigatoriamente da polinização, é beneficiada por ela na medida em que os grãos em um cultivo polinizado são mais pesados, o que gera maior lucro para o produtor.

Outro ponto importante a se observar é que áreas agrícolas cercadas por áreas naturais apresentam maior produtividade. São necessárias avaliações regionais para se ter uma visão mais ampla, mas o potencial da contribuição dos polinizadores na agricultura brasileira é muito grande. Culturas extensas como a canola, por exemplo, se beneficiam com a visita das abelhas, aumentando sua produção em vários locais do mundo. Nas áreas naturais, por exemplo, na Amazônia, o açaí e a castanha do Pará são apenas alguns dos muitos exemplos de plantas silvestres relevantes para o País, de importância social, nutricional e econômica, e que dependem inteiramente dos polinizadores para produzirem frutos.

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Crédito: Wikimedia Commons/Camila Neves Rodrigues da Silva

A.B.E.L.H.A. – Como o documento da IPBES pode orientar políticas públicas?

Vera Imperatriz – A avaliação do IPBES pode servir como um documento que aborda as questões sob todos pontos de vista, identificando os problemas, as tendências futuras e possíveis soluções, deixando ao leitor a decisão de qual caminho seguir, mas com todos os elementos disponíveis até julho de 2016 usados por todos. Um deles é a promoção de uma agricultura sustentável, que ajude a diversificar a paisagem agrícola e faça uso de processos ecológicos como parte da produção de alimentos. Também são fundamentais a manutenção de flores nativas e a criação de parques e jardins, que ofereçam mais alimentos aos polinizadores. Os Estados Unidos, e o Reino Unido, por exemplo, já desenvolveram políticas e estratégias para a conservação de polinizadores, as quais possibilitam e estimulam as parcerias público-privadas e utilização de todas áreas públicas disponíveis para plantar flores para as abelhas, modelo que poderia ser seguido no Brasil. Precisamos unir esforços e desenvolver mecanismos para prover essas parcerias.

A.B.E.L.H.A. – De que modo a sociedade pode contribuir para esse processo?

Vera Imperatriz – O papel da sociedade é fundamental. E não de modo genérico, efetivamente cada cidadão pode dar a sua contribuição. Iniciativas que envolvam a comunidade, como organizações de cidadãos cientistas, também representam um caminho, por meio do qual é possível contar com a contribuição de todos para aumentarmos as bases de conhecimentos sobre os polinizadores, incluindo observações sobre as flores que visitam e a frequência com que aparecem. E vale ressaltar também a necessidade de promover a aproximação entre as crianças e o meio ambiente. É o momento de voltarmos nosso olhar para a natureza, não apenas para aproveitar o bem estético que ela nos proporciona como também para tê-la como parceira, geradora de conhecimento, educação e alimentação.

Para participar das atividades da IPBES, tanto o governo quanto a sociedade civil, por meio de organizações, podem fazer indicações para participar de cada novo estudo, com o objetivo de tratar dos assuntos do ponto de vista da sociedade. Por isso temos todos os segmentos da sociedade participando deste trabalho.

A.B.E.L.H.A. – A educação ambiental cumpre esse papel?

Vera Imperatriz – A educação ambiental é muito importante para esta e para as futuras gerações. Neste âmbito, é necessário ressaltar o papel dos museus e das coleções biológicas. Um país megadiverso precisa ter base de informação pública aos interessados. As coleções brasileiras, embora sejam reflexo de nossa maior riqueza, que é a biodiversidade, são poucas e muitas delas não são digitalizadas dificultando a consulta pública aos acervos e, portanto, uma análise mais detalhada sobre espécies de polinizadores locais, áreas de atuação, como fazer a modelagem para avaliar o impacto do clima, composição genética e doenças, entres outros aspectos. Além disso, limita muito o acesso do público ao conteúdo. Museu não é coisa velha, é vivo, e representa a oportunidade de gerar e apreender conhecimento.

 

A IPBES é um painel intergovernamental independente aberto a todos os países-membros das Nações Unidas. Criado em abril de 2012, é o principal órgão intergovernamental para avaliar o estado da biodiversidade do planeta, seus ecossistemas e os serviços essenciais que prestam à sociedade. No âmbito da IPBES, tanto o governo quanto a sociedade civil, por meio de organizações, podem fazer indicações de nomes para participar de cada novo estudo, com o objetivo de tratar dos assuntos do ponto de vista da sociedade. A seleção é feita de acordo com a capacitação técnica dos proponentes.

Mais informações sobre a Avaliação Temática de Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos estão disponíveis, em inglês, no site da IPBES: http://www.ipbes.net/article/press-release-pollinators-vital-our-food-supply-under-threat[4]  

 

Ficha técnica

Entrevistada: Vera Lúcia Imperatriz Fonseca

Instituição: Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e Instituto Tecnológico Vale – Desenvolvimento Sustentável (ITV-DS)

Tema: IPBES

Endnotes:
  1. [Image]: http://abelha.org.br/wp-content/uploads/2016/03/IPBES-Malásia-reduzida.jpg
  2. [Image]: http://abelha.org.br/wp-content/uploads/2016/03/revoada-abelhas-Crédito-Cristiano-Menezes-reduzida.jpg
  3. [Image]: http://abelha.org.br/wp-content/uploads/2016/03/açaí-Crédito-Wikimedia-Commons-Camila-Neves-Rodrigues-da-Silva.jpg
  4. http://www.ipbes.net/article/press-release-pollinators-vital-our-food-supply-under-threat: http://www.ipbes.net/article/press-release-pollinators-vital-our-food-supply-under-threat

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