Abelhas sem ferrão – Mecanismos de controle de forrageamento e construção de células de cria em colônias

Abelhas sem ferrão – Mecanismos de controle de forrageamento e construção de células de cria em colônias

11 de julho de 2016

Por Camila Maia Silva

Abelhas denominadas “altamente eussociais”, a exemplo das abelhas melíferas (abelhas africanizadas) ou das abelhas sem ferrão (meliponíneos), são espécies que vivem em colônias perenes. Durante as estações com baixa oferta de fontes de alimento no ambiente externo, os indivíduos são mantidos através do alimento (néctar e pólen) estocado no interior das colônias. Um fator essencial para o crescimento e a sobrevivência das colônias é a quantidade de pólen armazenado, visto que esse alimento é a principal fonte de proteínas para o desenvolvimento das larvas.

Mas como as abelhas reagem quando a quantidade de pólen estocado diminui? A reação provavelmente mais lógica seria intensificar a coleta de pólen e consequentemente aumentar a disponibilidade desse recurso para a alimentação da cria. Tal estratégia é bem conhecida nas abelhas melíferas (Apis mellifera), cujas abelhas adultas aumentam rapidamente a coleta de pólen (forrageamento controlado pela demanda) para alimentar as larvas em desenvolvimento.

Porém, o que as abelhas fazem quando não existem fontes de pólen disponíveis na natureza? Essa situação é muito comum na Caatinga, região semiárida do Nordeste brasileiro, onde a maioria das plantas floresce apenas durante uma curta e imprevisível estação chuvosa. As abelhas africanizadas – que foram introduzidas no Nordeste brasileiro na década de 1960 – não conseguem lidar com esta situação e abandonam as colônias nos meses de escassez de recursos florais nessa região, migrando para outras áreas mais favoráveis. Já as abelhas sem ferrão nativas da Caatinga permanecem nos seus ninhos e, consequentemente, precisam de alguma estratégia para sobreviver durante os longos períodos sem plantas em floração.

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Melipona subnitida em-flor de Libidibia ferrea. Crédito: Michael Hrncir

Um estudo recentemente publicado na revista Journal of Comparative Physiology A, realizado com a abelha jandaíra (Melipona subnitida) – espécie de abelha sem ferrão que ocorre exclusivamente na região Nordeste brasileira –, demonstrou que, ao invés de intensificar a atividade forrageira, essas abelhas diminuem a construção de células de cria em resposta à redução do estoque de pólen. Por outro lado, quando aumenta a disponibilidade de pólen dentro do ninho, as colônias aumentam a produção de cria.

Essa estratégia (produção de cria controlada pela oferta) é fundamental para a manutenção de colônias perenes na Caatinga. Quando não há alimento no ambiente, as abelhas reduzem a produção de novas gerações de abelhas, assim reduzindo ainda mais a necessidade por alimento. No entanto, quando as fontes alimentares são abundantes, as abelhas intensificam rapidamente a produção de novas abelhas, aumentando o número de indivíduos na colônia que poderão ajudar na coleta de pólen e néctar, enquanto estes ainda estiverem disponíveis no ambiente.

A capacidade de regular rapidamente a produção de cria em resposta à quantidade de pólen estocado somente é possível devido à forma de alimentação larval das abelhas sem ferrão. Enquanto as abelhas melíferas alimentam suas larvas progressivamente, o que requer uma disponibilidade quase constante de pólen, as abelhas sem ferrão colocam todo o alimento dentro das células de cria e as fecham, depois da oviposição pela rainha (aprovisionamento massal). Desta forma, as abelhas sem ferrão produzem novas células de cria apenas enquanto há pólen suficiente estocado nas colônias.

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Melipona subnitida. Crédito: Michael Hrncir

Referência: Maia-Silva C, Hrncir M, Imperatriz-Fonseca VL, Schorkopf DLP (2016) Stingless bees (Melipona subnitida) adjust brood production rather than foraging activity in response to changes in pollen stores.  http://link.springer.com/article/10.1007/s00359-016-1095-y

Camila Maia Silva é doutora em Entomologia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP) e pós-doutoranda em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA)

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