Abelhas e Agricultura

Abelhas e Agricultura

A relação das abelhas com práticas agrícolas sempre teve um caráter complementar, com benefícios para todos os envolvidos. Enquanto as abelhas conseguem o néctar e o pólen necessários para se alimentar, e produzir o mel e outros derivados (para as espécie que formam grandes colônias), a agricultura se beneficia da polinização que amplia sua produtividade e garante frutos com mais qualidade e, consequentemente, maior valor de mercado.

O desenvolvimento da agricultura, com a consequente ampliação da área cultivada e diminuição das áreas de mata nativa, o crescimento das monoculturas, entre outras técnicas modernas de plantio, e o uso de defensivos agrícolas de forma incorreta acabaram provocando abalos nessa relação, que é a base da nossa cadeia alimentar.

O sinal de alerta acendeu com o declínio das populações de abelhas, especialmente nos países do Hemisfério Norte. A face mais visível desse cenário de incertezas é o CCD (sigla em inglês para Colony Colapse Disorder), um fenômeno que, pelo fato de não ter sido ainda esclarecido, acabou suscitando dúvidas e conclusões apressadas, principalmente quando se leva em conta que não há registro oficial de CCD no Brasil e existem substanciais diferenças entre o cenário brasileiro e a situação nos Estados Unidos e Europa.

Mas afinal, quais são as possibilidade de convivência da agricultura moderna com as práticas de apicultura e meliponicultura?

 

Cenário apícola brasileiro

A predominância de abelhas africanizadas em nossa apicultura é um dos principais diferenciais do cenário brasileiro. Conhecidas pela alta produtividade e pela resistência a doenças e parasitas, elas também sofrem com a introdução de novos patógenos, incluindo fungos, bactérias e vírus, além de acidentes com inseticidas, causados muitas vezes por negligência ou imperícia.

Mesmo diante dessas adversidades, as abelhas africanizadas apresentam um imenso potencial de polinização que acaba esbarrando em questões culturais. Por falta de tradição e conhecimento, suas colmeias são pouco requisitadas para a polinização. Em termos gerais, apenas produtores de maçã e melão costumam alugar colmeias. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aluguel de colmeias é um serviço importante que movimenta expressivas cifras.

Este potencial explorado timidamente de polinização é confirmado por alguns estudos, que precisam de maior divulgação para a mudança de mentalidade dos agricultores. Além disso, o próprio setor acadêmico sente a necessidade de mais investimento em pesquisas para o diagnóstico e controle de doenças que afetam as abelhas. Para isso, o estabelecimento de laboratórios regionais, com equipamentos modernos e técnicos qualificados, serviria inclusive para o desenvolvimento de linhagens de abelhas mais produtivas, resistentes e adaptadas para as especificidades regionais.

A criação de uma apicultura migratória, baseada em um calendário de floradas e com transporte eficiente que minimize as perdas e o estresse das abelhas, pode ser um passo fundamental para a ampliação da produtividade do campo junto com a produção de mel e derivados.

 

A contribuição da meliponicultura

Apesar de conhecermos menos o potencial de polinização das abelhas sem ferrão, elas também cumprem um importante papel nessa área devido à grande alta diversidade de espécies que fazem parte da fauna brasileira. Essa diversidade resulta em diferentes preferências florais, o que contribui decisivamente para a manutenção da biodiversidade ou pode ser um fator fundamental em projetos de compensação ambiental que visam recuperar matas nativas.

As abelhas sem ferrão também são ótimas para polinizar culturas agrícolas de importância econômica em âmbito regional e nacional (por exemplo, café, tomate, berinjela, manga, coco, morango, goiaba, cupuaçu, açaí, camu-camu). Além disso, os diferentes tipos de mel que produzem demonstram cada vez mais potencial para o mercado como produto premium de grande valor agregado, apesar de ainda não estarem devidamente regulamentados pelo Ministério da Agricultura.

 

Abelhas e defensivos agrícolas

Uma série de incidentes envolvendo a alta taxa de mortalidade de abelhas e aplicação de defensivos agrícolas explicitou a necessidade de estudos mais conclusivos sobre a questão, muitas vezes tratada de maneira dogmática e desprovida de base científica.

Há por um lado a inegável contribuição que esses produtos deram ao salto de produtividade do agronegócio brasileiro, que se impõe como sustentáculo de quase um terço das riquezas do país. Na outra ponta estão os apicultores e meliponicultores, preocupados com sucessivos acidentes que causaram perdas significativas ao setor.

Para entender o real efeito dos inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas sobre as abelhas polinizadoras são necessários alguns passos como a uniformização de metodologias, já que há muitas divergências entre trabalhos conduzidos na academia, em órgãos públicos e por empresas de defensivos. O desafio é estabelecer estudos que realmente consigam simular as reais condições do campo.

Além do incentivo à produção científica, sente-se a necessidade de maior fiscalização sobre as vendas dos agroquímicos para impedir o uso de produtos piratas ou não autorizados no território brasileiro. Garantir treinamento adequado para a correta utilização é outra medida que precisa ser reforçada.

Devido a alguns acidentes causados por erros de aplicação, a aviação agrícola passou a ser vista de forma mais crítica, com a mobilização de militantes que pedem sua proibição. Ocorre que, diferentemente do que alegam seus detratores, o emprego da aviação agrícola permite usar uma menor quantidade de produtos químicos quando comparada com outras formas de aplicação.

Para atingir a necessária precisão, é preciso que o setor busque novas certificações de segurança, tanto para as aeronaves como para os pilotos. Já os agricultores precisam respeitar os limites corretos de suas culturas, sem ultrapassar o espaço determinado, mantendo assim a distância necessária para as faixas de vegetação que não devem receber vestígios da aplicação.

Outra necessidade para a convivência sinérgica e produtiva das abelhas com a agricultura é uma comunicação efetiva entre as partes. A análise de algumas ocorrências demonstra que muitas vezes o agricultor desconhece a presença de práticas apícolas nas adjacências de sua propriedade. Com o conhecimento adequado, o apicultor pode saber de antemão quando haverá aplicação de defensivos agrícolas e poderá realizar um manejo especial para evitar que as abelhas entrem em contato com as substâncias.