A polinização é central para a produção de alimentos

A polinização é central para a produção de alimentos

7 de abril de 2015

Em entrevista à A.B.E.L.H.A., Peter Kevan, Diretor-Executivo da Canadian Pollination Initiative, trata de alguns dos esforços internacionais para a proteção dos polinizadores

 

Peter-KevanEle está aposentado, mas não pensa em parar de trabalhar. Peter Kevan, professor emérito da Universidade de Guelph e membro da Royal Society do Canadá, mora em Cambridge, e esteve no Brasil para uma série de encontros com pesquisadores nacionais, envolvidos nos trabalhos que estão sendo realizados pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), além do Curso Internacional de Polinização, realizado há 11 anos.

O tema que permeia seus estudos são os polinizadores, em especial o papel fundamental que eles realizam na produção de alimentos, na regeneração de áreas degradadas e na conservação de áreas naturais.

Em entrevista à A.B.E.L.H.A., Kevan conta um pouco de seu trabalho na direção-executiva da Canadian Pollination Initiative (NSERC-CANPOLIN), e avalia os principais desafios enfrentados no mundo para a proteção dos polinizadores.

A.B.E.L.H.A. – Qual o papel da Canadian Pollination Initiative na divulgação de estudos e informação científica? Como a organização atua?

Peter Kevan – A Canadian Pollination Initiative (NSERC-CANPOLIN) é uma rede estratégica de pesquisas que aborda o problema crescente do declínio dos polinizadores em ecossistemas agrícolas e naturais no Canadá. A iniciativa de cinco anos – no âmbito do National Science and Engineering Research Council of Canada – foi idealizada por mim e outro colega pesquisador, Laurence Packer, da Universidade de York (Canadá).

A.B.E.L.H.A. – Como a CANPOLIN define e organiza os temas e as pesquisas?

Peter Kevan – Tudo ocorreu de acordo com a necessidade que tínhamos na geração de dados. Iniciamos com a criação de um board, requisito da NSERC, e essas pessoas ajudaram a definir os temas dos estudos, os pesquisadores a serem envolvidos e como adequar esses estudos à proposta da CANPOLIN. Foram criados assim seis grupos de trabalho multidisciplinares, que compreendem, entre outros temas, Diversidade de Polinizadores, Reprodução das Plantas, Interações Ecológicas, Dados Econômicos e Predições (de clima, de terra, etc.).

São 29 instituições envolvidas, principalmente universidades, e uma rede de mais de 100 pesquisadores, responsável por mais de duzentos artigos científicos publicados acerca do tema dos polinizadores. Entre eles, 1)Taxonomia de Insetos e Polinizadores; 2) Manejo de Polinizadores/ Mel, Abelhas melíferas e Bombus; 3) Ecologia; 4) Epidemiologia; 5) Modelos Estatísticos; e 6) Controle Biológico. Este último, inclusive, gerou três pedidos de patente.

A.B.E.L.H.A. – Como o senhor avalia a situação atual dos polinizadores? Podemos afirmar que há uma crise mundial?

Peter Kevan – Estamos enfrentando problemas sérios. Uma crise? Não podemos falar de uma crise global, mas há problemas em alguns locais e eles estão se espalhando. Há uma complexa série de fatores e circunstâncias que podem afetar seriamente a população de polinizadores, desde parasitas (como o ácaro varroa), patógenos e problemas nutricionais (a exemplo da ausência de diferentes tipos de pólen, o que torna os insetos suscetíveis a doenças), passando por redução de áreas nativas e intensificação da produção agrícola mecanizada até o uso de insumos agrícolas de maneira inadequada.

Peter-Kevan-1Nos Estados Unidos, por exemplo, há outro fator relevante, o estresse causado pelo transporte dos polinizadores. Na Califórnia, a produção de amêndoas é totalmente dependente das abelhas, que são levadas em massa para prestar esse serviço durante o período da polinização das árvores (fevereiro). Ocorre que, em muitos casos, as abelhas são trazidas de outros locais distantes, em caminhões, sujeitas ao estresse que essa ação pode causar.

A.B.E.L.H.A. – De que forma a ciência pode contribuir para frear esses problemas?

Peter Kevan – A polinização é um serviço ecossistêmico central para a produção de alimentos, a regeneração de áreas degradadas e a conservação de áreas naturais. É preciso, portanto, estudar a fundo essas questões e gerar informação suficiente que permita que os produtores agrícolas e criadores de abelha tenham condição de aplicar as melhores práticas disponíveis para essa integração essencial entre a agricultura e os polinizadores.

A.B.E.L.H.A. – É um pouco do que a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), da qual o senhor é membro, propõe?

Peter Kevan – De fato, a IPBES foi estabelecida pela comunidade internacional em 2012 como um organismo intergovernamental para avaliar o estado da biodiversidade no mundo, seus ecossistemas e os serviços essenciais que prestam à sociedade. Sob essa ótica, pesquisadores de vários países estão trabalhando em um documento que pretende revelar a situação atual da polinização no mundo, como uma ferramenta para munir governantes e legisladores de informações que possam subsidiar políticas e normas.

Esse e outros esforços internacionais devem ser encorajados. O Brasil, inclusive, deve se sentir orgulhoso por ter inserido o tema dos polinizadores no âmbito da Convenção da Diversidade Biológica (CBD). Foi esse movimento que se iniciou aqui em 1988, que levou à criação da Iniciativa Internacional dos Polinizadores (IPI).

 

Ficha técnica

Entrevistado: Peter Kevan
Instituição: Universidade de Guelph (Canadá) e CANPOLIN
Tema: Iniciativas internacionais para a preservação dos polinizadores